O termo 1000 DIAS foi apresentado pela primeira vez em 2008, em um estudo britânico sobre desnutrição materna e infantil.
Os primeiros 1.000 dias de vida compreendem desde o momento da concepção do indivíduo até os dois anos de idade da criança.
São 270 dias da gestação( 40 semanas), mais 365 dias do primeiro ano de vida somados aos 365 dias do segundo ano.

Dra Glauce é médica pediatra, formada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, realizou Residência médica em Pediatria, na Unicamp, e atualmente é Professora Colaboradora de Pediatria da Faculdade de Medicina de Jundiaí. Possui mais de 15 anos de experiência, além de ser médica pediatra da Prefeitura de Jundiaí. Atualmente, cursando Mestrado em Saúde da Criança e Adolescente pela Faculdade de Medicina de Jundiaí.
“Como pediatra com vários anos de experiência, meu compromisso é proporcionar um atendimento cuidadoso e personalizado a cada criança e sua família. Acredito na importância de um ambiente acolhedor e de uma abordagem holística para promover o desenvolvimento saudável e o bem-estar dos pequenos pacientes.” – Dra Glauce Cérgoli




Período crucial para crescimento e desenvolvimento infantil, pois trata-se de uma ‘janela de oportunidades’, na qual é possível adotar hábitos e atitudes que irão influenciar o futuro do indivíduo
É nesse período que cada célula do corpo está sendo formada e programada.
Esse período é considerado um INTERVALO DE OURO, que pode mudar radicalmente o destino da criança, não apenas em termos biológicos (crescimento e desenvolvimento), mas também em questões intelectuais e sociais.
Durante essa fase, toda nutrição, cuidado e estímulos que a criança recebe faz diferença.
É um período fundamental para que a criança possa atingir o seu potencial máximo de crescimento e desenvolvimento.

FATORES QUE INFLUENCIAM: INTERNOS E EXTERNOS
Atualmente, os estudos sugerem que a nutrição no período da gestação e nos primeiros 2 anos de vida pode determinar efeitos, a curto e longo prazo, na saúde e no bem-estar até a vida adulta.
Já se sabe, também, que a genética não é soberana na determinação do potencial de crescimento e desenvolvimento do indivíduo: cerca de 20% dos nossos genes são influenciados por fatores hereditários, enquanto a maior parte deles, até 80%, é influenciada por fatores ambientais como: medicamentos, estresse, infecções, exercícios e nutrição.
“Assim, os efeitos do ambiente tais como alimentação, estresse, atividade física, exposição ao fumo e álcool, entre outros hábitos e atitudes, neste período, irão causar um impacto nos indicadores de saúde e doença em curto e longo prazo.
Na vida intrauterina e nos primeiros anos de vida, o contexto ambiental onde a criança está inserida tem grande influência no seu desenvolvimento neuropsicomotor. “Nesse período, o cérebro apresenta o seu mais rápido crescimento. Para que a criança consiga atingir seu pleno potencial, o ambiente em que ela vive tem que ser o mais saudável e estimulante possível”

Problemas no desenvolvimento cognitivo, físico e social são mais frequentes em crianças de países de baixa e média renda, fundamentalmente por elas estarem mais sujeitas a problemas perinatais e por conviver, com maior frequência, em ambientes familiares desfavoráveis, onde a estimulação e o suporte social são muitas vezes inadequados.
Durante os mil dias é possível impactar na redução da mortalidade e danos ao crescimento e neurodesenvolvimento futuro da criança. Pode-se, também, caminhar na prevenção das denominadas doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) durante a vida adulta, como a síndrome metabólica – caracterizada por diabetes, dislipidemia e hipertensão arterial – e, ainda, alguns tipos de cânceres.
Nessa fase, mecanismos epigenéticos, que podem alterar a estrutura do DNA, levam ao risco do desenvolvimento dessas doenças, portanto, evitar a subnutrição e a obesidade durante os mil dias é crucial na prevenção das doenças crônicas não transmissíveis. As intervenções básicas propostas no período dos primeiros mil dias consistem, dessa maneira, em assegurar à mulher controle de saúde no pré-natal e nutrição adequada durante a gestação e lactação.
Além disso, o leite materno é fundamental para garantir a boa nutrição da criança, uma vez que se trata do alimento que melhor atende às necessidades nutricionais dos lactentes.
ALIMENTAÇÃO ADEQUADA
Uma alimentação adequada durante a gestação, associada ao aleitamento materno, à correta introdução da alimentação complementar e à manutenção de bons hábitos alimentares, é requisito básico para o crescimento e desenvolvimento infantil.
Uma boa nutrição e o cuidado com a saúde nos primeiros 1000 dias têm um papel protetor, que ajuda a garantir um futuro no qual as habilidades cognitivas, motoras e sociais estimularão a saúde e o potencial máximo do adulto.

CONSULTA PRÉ-NATAL
Nessa janela de oportunidade única, é possível atuar preventivamente, gerando repercussões na saúde, bem como no risco de desenvolvimento de doenças por toda a vida da criança: boas condições de saúde materna, dieta saudável da gestante, parto espontâneo por via vaginal a termo e aleitamento materno.
Desse modo, são desejáveis intervenções nutricionais visando reduzir a chance de maus resultados perinatais, como anomalias congênitas, prematuridade, baixo peso ao nascer, macrossomia fetal, bem como prevenir repercussões maternas desfavoráveis, como anemia, hipertensão, sobrepeso, diabetes, entre outros.
O efeito da nutrição nos primeiros mil dias sobre a saúde e a produtividade final dos indivíduos é profundo. A má nutrição aumenta os riscos e incapacidades à saúde e diminui o potencial neurocognitivo das crianças.
Também a obesidade maternas e infantil também podem impactar negativamente o neurodesenvolvimento. É difícil recuperar-se desses efeitos precoces e déficits mais tarde na vida. Além disso, o impacto da má nutrição no início da vida pode transcender gerações. As crianças desnutridas do sexo feminino de hoje (com sub ou supernutrição) podem perpetuar o ciclo de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) relacionadas à nutrição e o aumento da mortalidade e incapacidade em seus descendentes.

Como os efeitos da nutrição precoce são profundos e duradouros, o efeito cumulativo de “acertar” no início da vida pode ser o maior retorno do investimento para a sociedade. A gravidez e os primeiros dois anos de vida – os primeiros mil dias – fornecem uma janela de oportunidade única para deter a desnutrição persistente e a epidemia de doenças crônicas não transmissíveis.
Mudanças ambientais, sociais e econômicas são necessárias para permitir o acesso e a acessibilidade de alimentos saudáveis às famílias. Os primeiros anos são um período de notável plasticidade em humanos, que permite a programação de funções metabólicas, imunológicas e cognitivas, bem como padrões comportamentais e de ingestão alimentar. Isso pode e precisa ser moldado pelos pais e cuidadores. Para isso, será necessária educação em nutrição em vários níveis, mas, especialmente, para os pais. A gestação e a infância são os períodos da vida em que os pais estão mais ansiosos para aprender e aplicar oportunidades educacionais e outras concedidas a eles para beneficiar sua prole.
Finalmente, a atenção e a priorização da nutrição nos primeiros mil dias podem não apenas melhorar a saúde e a vida dos indivíduos, mas também é uma oportunidade para reduzir as disparidades em saúde, educação, potencial de ganho e aumentar o produto interno bruto (PIB) dos países, quebrando assim o ciclo intergeracional da pobreza.
Pediatra na sala de parto
A presença do pediatra no momento do nascimento é primordial para atender o recém-nascido na sua transição da vida intrauterina para a vida extrauterina.
A primeira hora de vida, a hora de ouro ou golden hour:
A golden hour engloba um conjunto de práticas baseadas em evidências que contribuem para a estabilização fisiológica da díade mãe/recém-nascido após o nascimento.
Elementos importantes incluem o clampeamento tardio do cordão, o contato pele a pele por pelo menos uma hora, a realização de avaliações do recém-nascido no abdome materno, o adiamento de tarefas não urgentes (por exemplo, dar banho) por 60 minutos e o início precoce da amamentação.

A hora de ouro contribui para a termorregulação neonatal, diminuição dos níveis de estresse em uma mulher e seu recém-nascido e melhora o vínculo mãe-bebê. A implementação dessas ações está, ainda, associada ao aumento das taxas e da duração do aleitamento materno. As estratégias para implementar com sucesso um protocolo golden hour em uma unidade hospitalar é de grande importância, pois têm impacto sobre as taxas de amamentação e tempo de duração do aleitamento materno, propiciando uma nutrição saudável e segura para o lactente.
A Puericultura nos primeiros dois anos de vida
O reconhecimento da importância do acompanhamento ambulatorial de crianças saudáveis é um marco de transformação na Pediatria, pois, atualmente, nos deparamos com um novo e grande desafio: cuidar da saúde física e mental de crianças que poderão viver 100 anos e precisam viver essa quantidade com qualidade de vida.
Entretanto, cada caso é um caso e, sendo assim, o número de consultas deve ser individualizado para cada criança de acordo com suas necessidades de acompanhamento.
Nessas consultas, o pediatra deve estar habilitado para avaliar e monitorar vários parâmetros nas esferas nutricional, emocional, socioeconômica, ambiental, imunológica (incluindo a cobertura vacinal), neurocognitiva, preventiva de acidentes e tempo de tela, além de trabalhar para reduzir ao máximo o estresse tóxico na criança. Os dois primeiros anos de vida se apresentam como a maior janela de oportunidade para intervenções preventivas e curativas.

Estado nutricional
A nutrição desempenha um papel fundamental no crescimento e desenvolvimento do bebê até a adolescência.
Lembrando que o peso de nascimento triplica no primeiro ano de vida e, quanto à estatura, temos a maior velocidade de crescimento de toda vida nos primeiros dois anos.
Os primeiros 1.000 dias contribuirão para moldar preferências alimentares futuras sendo importante ressaltar que hábitos alimentares são fatores de risco comuns para diferentes agravos de saúde bucal e saúde geral.

Desenvolvimento
O desenvolvimento neuropsicomotor da criança ocorre de acordo com o seu potencial genético, em uma sequência fixa de etapas, e depende da integridade do sistema nervoso central e da qualidade do ambiente, com diversidade de estímulos múltiplos (afetivos, ambientais, sociais e psicológicos).
Assim, a carga genética define o potencial, que é influenciado pelos diferentes determinantes. Isso propiciará que cada criança tenha o seu próprio desenvolvimento, mesmo sendo gêmeos univitelínicos.
Segundo dados da OMS, nos países em desenvolvimento, cerca de 200 milhões de crianças com menos de cinco anos apresentam desenvolvimento inferior ao seu potencial. Estima-se que, aproximadamente, uma em cada oito crianças tenha alterações do desenvolvimento que podem interferir de forma significativa em sua qualidade de vida e inclusão na sociedade.

Maturação imunológica
A maturação imunológica ocorre, principalmente, nos dois primeiros anos de vida. A descoberta, nas últimas décadas, de que a microbiota intestinal e os componentes dietéticos exercem funções até então insuspeitas no sistema imune trouxe informações importantes sobre as doenças humanas e sobre novas alternativas terapêuticas baseadas na manipulação desses componentes.
O parto vaginal e o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida e associado até os dois anos à alimentação complementar segundo a pirâmide alimentar da SBP contribuem para uma saudável diversidade da microbiota.

Saúde integral da criança
Nos dois primeiros anos de vida, a criança precisa BRINCAR. A interação com pais e cuidadores é fundamental. O olhar, o falar, a manipulação de um brinquedo, conversar, estimular o cumprimento dos marcos do desenvolvimento, inclusive o ato de alimentar: dar o alimento, de forma lúdica, a criança precisa sentir o sabor dos alimentos, pegar, sentir e ver a cor do que está comendo, tudo isso faz parte do processo de aprendizagem.
Está claro que, nesses primeiros dois anos de vida, “a tela” é o inimigo oculto que atrasa e deturpa todo processo de neurodesenvolvimento.
É também missão do pediatra, no atendimento ambulatorial de Puericultura, mostrar aos pais a importância das regras, limites, disciplina e educação.